Professora potiguara aposta na educação para ocupar espaços e valorizar origens indígenas na PB: ‘educação é arma poderosa’

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A educação como mecanismo de transformação e valorização da cultura e origens dos povos indígenas. É nisso que acredita a professora potiguara Cristiane Ferreira Padilha, que herdou o amor pelo conhecimento do pai, o dividiu com as irmãs e o repassou para o filho, além de compartilhá-lo com todos os alunos que passaram por sua sala de aula há pelo menos 20 anos. “A educação é uma arma poderosa que pode transformar a vida das pessoas”, defende.

Nesta segunda-feira (19), é celebrado o Dia Internacional dos Povos Indígenas.

Cristiane é indígena da etnia Potiguara e nasceu no município de Marcação, na Paraíba. Ela atua como professora dos ensinos fundamental II e médio na aldeia Akajutibiru, em Baía da Traição, onde desenvolve um trabalho que inclui no currículo da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “história e cultura afro-brasileira e indígena”. E não cansa de aprender. Também é estudante da especialização em educação étnico-racial na educação infantil do Centro de Humanidades da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

Atualmente, como professora, Cristiane transmite tudo aquilo que aprendeu durante anos de estudo, pesquisa e vivência.

“Falamos sobre o nosso povo, nossas tradições, nossos direitos, resgatamos nossas línguas. Eu me identifico como Potiguara porque tenho minhas raízes e minha ancestralidade. Minha irmã já foi cacique e, inclusive, foi quem me influenciou a participar do movimento indígena, o que me fez também buscar o curso de história, para me tornar professora e ensinar as próximas gerações sobre a nossa cultura, nossas origens”, avalia Cristiane.

Cristiane Padilha — Foto: Reprodução/UEPB
Cristiane Padilha — Foto: Reprodução/UEPB

Filha de uma marisqueira e de um agente fluvial da Marinha brasileira, ela tem oito irmãs, sendo uma irmã gêmea, além de três irmãos. Das oito mulheres, seis são professoras. E não é por coincidência, já que, segundo Cristiane, a educação foi o agente transformador da família, com total incentivo do pai, José Ferreira Padilha.

“Meu pai sempre nos incentivou muito para a gente estudar e se formar. Ele dizia uma coisa que nunca me esqueço: estudem, se formem para vocês serem independentes e não dependerem de ninguém, nem de homem nenhum”, contou.

Cristiane e sua família  — Foto: Cristiane Padilha/ Arquivo Pessoal
Cristiane e sua família — Foto: Cristiane Padilha/ Arquivo Pessoal

Preconceito e identificação

Ainda na infância, aos 11 anos, a paraibana começou a sofrer preconceito por se autodeclarar indígena. Nessa época, também, surgiu o desejo de saber mais sobre a sua ancestralidade.

“Ingressei no curso de história e dentro do movimento [indígena] por, aos 11 anos, ser muito discriminada por me assumir indígena, que, naquela época os mais velhos chamavam de cabocla, mas hoje nos identificamos Potiguara, que é a nossa etnia”, explicou.

Cristiane conta que o pai também foi fundamental no seu processo de aproximação das raízes indígenas. “Meu pai foi um exemplo de ser humano e de amorosidade para família. Jamais vou esquecer o elo que ele nos manteve por sendo criada em sítios, marés e próximos ao mar, fazendo com que a gente tivesse um vida saudável e feliz”, contou.

Segundo a professora, um dos principais motivos para que ela se formasse em história foi “a ligação, que teve desde a infância com a natureza e se auto afirmar como indígena”.

‘A educação é o pilar da construção do nosso futuro’

Cristiane durante aula com alunas — Foto: Arquivo Pessoal/Cristiane Padilha
Cristiane durante aula com alunas — Foto: Arquivo Pessoal/Cristiane Padilha

Desde muito cedo, a maior paixão de Cristiane é ler. Sempre foi incentivada pela família a ler e assim desenvolver criticidade. “Quando alguém me perguntava o que eu queria ser quando crescesse, eu sempre respondia: eu quero me formar e ser independente!”.

“A educação é o pilar da construção do nosso futuro. Quando falo disso, falo de todas nós, das seis irmãs, porque mesmo a gente continuando na aldeia, conseguimos construir uma nova trajetória. Hoje somos cidadãs críticas, cada uma com sua forma de pensar, respeitando a opinião dos outros”, afirmou.

Cristiane fala das irmãs cheia de orgulho. Cada uma, do seu jeito, conseguiu atender ao pedido do pai, de estudar e ser independente. A potiguara atua há pelo menos 20 anos na área da educação.

Cristiane Padilha durante aula com alunas — Foto: Cristiane Padilha/Arquivo Pessoal
Cristiane Padilha durante aula com alunas — Foto: Cristiane Padilha/Arquivo Pessoal

“Faço parte do movimento na área da educação escolar indígena onde fui protagonista em lutar pela estadualização de uma escola, em 2009, que leva o nome do pai, a Escola Indígena de Ensino Fundamental José Ferreira Padilha. Essa foi uma conquista muito importante pra o município de Marcação e aldeia do Vai”, conta.

De geração em geração

Professora potiguara Cristiane Padilha na formatura do filho José — Foto: Cristiane Padilha/Arquivo Pessoal

Professora potiguara Cristiane Padilha na formatura do filho José — Foto: Cristiane Padilha/Arquivo Pessoal

Assim como Cristiane e as irmãs tiveram o incentivo dos pais, ela também é a maior incentivadora do filho, que é o primeiro jornalista potiguara paraibano. José Ferreira Padilha Neto se formou em jornalismo e atualmente mora no Rio de Janeiro, onde busca o sonho de se tornar ator.

O orgulho da professora do filho, das irmãs, da trajetória de seus pais e do seu povo são evidentes em cada detalhe de superação e vitória de sua história. O desejo dela é que mais indígenas possam também ocupar cada vez mais espaços e realizar seus sonhos, escolhendo suas profissões e tendo, claro, seus dons reconhecidos e valorizados. O caminho disso, para Cristiane, é um só: a educação.

via:G1Paraiba

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